quarta-feira, 2 de julho de 2008

Um choro na multidão




















*obs: O Barão de Itararé está de férias. Leonardo Velasco escreve como interino.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Afasia

Numa bela noite clara, me deparei com a espiritualidade. Abro a porta do meu quarto, acendo a luz e um cigarro também pode ser. Nunca havia parado pra pensar nos espíritos, nessas coisas do além,sempre as achei cabalísticas no sentido mais etéreo que isso possa ter. Desde que encontrei Déscartes traço tudo num plano cartesiano e esqueço do resto. Só quero saber se matematicamente é viável e ponto. Somo e divido por dois. Não tenho paciência para religião: a única que aceitei foi o marxismo, mas logo que fundaram o PCB em 1922 pulei fora e adotei o famoso "Tenho espiritualidade independente de religião". Tenho sim, sou um católico impraticável assim como um esquerdista-liberal.
Eis a verdade, minha vida espiritual é um paradoxo. Até que num momento de total catarse (sem propósito, em plena segunda-feira) me entreguei a religião. Fui tocado por um sentimento diferente, parece que desligaram todas as minhas tomadas e assim, deixei de ter razão. Aliás, pra que ter razão sobre tudo? A razão foi inventada para alguns dizerem pouco pra muitos ouvirem. É de um plano de cima pra baixo, colocando todos ao pé da Grande Razão. Contata-se, não obstante, que os seres humanos(e eu odeio usar essa palavra) são pequenos e que muitas coisinhas acontecem e há de se teimar em reduzi-las em fictício, em sugestão, ilusão. São as historietas que aparecem aqui ou acolá, no jornaleiro, na fila do banco, nos fragmentos do cotidiano. São, na verdade, coisas fora da razão que nos fazem viver. Com razão, não há vida.
Por mais absurdo que isso pode parecer às vistas de um intelectual em formação que toma as palavras à ponta de faca ou então, como peças sólidas de um castelo imagético que possa dar conta das convicções, a razão é pouca.

E por não ter razão nenhuma, eu escrevi esse texto.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Os incompreendidos


Mais uma vez volto com a resenha de um filme que ganhei de aniversário de uma pessoa muito amiga minha. Se chama "Os incompreendidos" do diretor François Truffaut que ficou imortal pela sua contribuição ao cinema com a chamada nouvelle vague.
A priori, não estou interessado em uma apresentação do movimento na história do cinema e suas implicações, mas principalmente pelo que o filme chama mais atenção a ponto de ser descrito aqui no PSEUDEANDO.

É uma história verídica baseada na infância do próprio Truffaut que senão fosse o André Bazin, poderia ter seguido outro caminho como o próprio mostrado no filme, o da marginalidade. Trata-se do jovem Antoine Doinel, interpretado pelo Jean-Pierre Léaud, que "tem uma espécie de solene desapego, como se o seu coração estivesse marcado por profundas feridas adquiridas muito antes que o filme fosse rodado." Antoine mora com a mãe e o padrasto. Aquela é uma mulher nervosa, possui um amante, se angustiada com as condições de vida e com o próprio filho que ela faz questão de anulá-lo como sujeito, psicanaliticamente falando.O padrasto seria então o responsável pelo elo familiar e o que dá reconhecimento ao menino.

Antoine é um aluno indisciplinado, sujeito das pequenas infrações na escola como a de uma cena em que a foto de uma mulher nua passava de mão em mão até chegar na de Antoine quando então o professor o surpreende e o castiga. A partir daí, Antoine só aumenta sua indisciplina, falta a escola e quando perguntado o motivo de sua ausência, ele alega que a mãe morreu.

A mentira é sustentada até o momento em que a mãe aparece furiosa no colégio. Mas ao contrário do que seria previsto, a mãe não o castiga e o padrasto propõe uma saída com a família para o cinema. Parece ser um dos momentos mais felizes do filme que é marcado por um sofrimento atroz.

Antoine que é um garoto de doze anos, tem que lidar com situações que não estão dadas de antemão para um adolescente de sua idade. É nesse enredo fantástico de Truffaut que mostra a condição trágica do sujeito. É aí que o sujeito deve advir. A escola ortodoxa representada por um professor severo e às vezes sádico mostra o contexto da educação na época. Antoine se viu numa situação que ele fora obrigado sem ter mesmo pedido, embora tivesse o ingresso na mão. Ele teve que ser criado por uma mãe negligenciadora, por um padrasto que não é o pai dele, teve que ir pra escola todos os dias e teve que se expôr à arbitrariedade de um professor. Enfim, isso nos mostra como o nosso psiquismo é atravessado por um Real bruto.

O destino de Antoine como marginal ou como cineasta, este último como foi o caso de Truffaut, não está dado de antemão. É o próprio menino que irá sustentar essa responsabilidade pelos seus atos, idéias e construir pra si seus próprios referenciais. Antoine poderia ter sido, por analogia, as histéricas do século XIX que Freud as escutava sem ter uma fórmula ideal para curá-las. Assim como as histéricas, Antoine está num contexto social falido.
Freud ouve aquelas mulheres sabendo que este contexto social não dizia quem elas eram. Isso vai evocar a idéia do que é o corpo, a sexualidade, o que é ser mulher, o que é ser homem.
Pelas histéricas, constata-se que o corpo não nos pertence. Este pode adoecer, diz pro outro sobre a nossa idade, nossa origem. Um irreversível que a gente não domina. As histéricas estavam em um contexto que não ainda não havia movimento de libertação feminina.

Assim é o caso do pequeno Antoine que o professor nem quer saber da sua origem, das suas virtudes e do conflito que o jovem passa. Porém, a dimensão do sujeito está em tudo, como observou Freud, não está somente na esfera privada. O sujeito aparece com o sintoma. Os modos de subjetivação que indicam como se comportar, como ser um aluno, como ser um passageiro de ônibus não excluem o sujeito. Há uma lei que o sujeito precisa respeitar, mas ainda assim precisa se responsabilizar. Assim, Antoine advém onde ele deveria advir? Antoine advém como sintoma, istoé, como um rebelde, uma voz solitária na massa, como as histéricas que paralisavam o braço, a perna. O filme termina com o zoom da imagem congelada do jovem, olhando diretamente pra câmera. Ele acabou de fugir da prisão e está na praia, aprisionado entre a terra e a água, entre o passado e o futuro. É a primeira vez que vê o mar.


Contribuíram para a resenha:
Roger Ebert - "Os incompreendidos" in "A Magia do Cinema".
Aulas muito boas de psicanálise em 2008/1 da Fernanda Costa-Moura. ;)

sábado, 3 de maio de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

EU gosto, EU quero, EU faço.

Não sei se já falei disso em algum blog meu, mas não importa, falarei mesmo assim...

É incrível como cada vez mais vivemos numa política de salve-se quem puder. É claro que eu não nasci ontem e sei que o individualismo é o alicerce do nosso contexto atual. Porém, nunca se ouviu coisas como "ele é assim porque quer" ou "cada um faz o que gosta" impera como os grandes eufemismos da nossa época que mostra como nos tornamos cada vez mais únicos, mais sujeitos em si e para si mesmos.

Nos anos 20, no auge da Revolução Russa, surge a possibilidade de ser diferente. Surgiram as vanguardas européias na literatura, nas artes plásticas e no cinema. O homem-câmera do Vertov era expressão de uma esperança de abrirmos mão de nossa individualidade assim como os heróis coletivos do cinema do Einsenstein. Chega de close-ups, o lance é agir independente de uma subjetividade que esta sim é burguesa e perfídia do sistema. Surge ao mesmo tempo a Sociedade do Espetáculo onde as imagens correm soltas, a espécie homo videns e todas as outras características estéticas específicas do contexto.

O fim como nós todos já sabemos é trágico. A televisão e os outros meios de comunicação introjetam figuras menos autoritárias e mais sedutoras que os pais, a escola e outros que eram exclusivamente delegados a produzir subjetividades. Substituindo assim o papel das instituições modernas, os meios de comunicação criam modos de entender o mundo, modos de ser. Dessa forma, o EU é o privilegiado. O eu consciente, é claro. O insconciente ainda possui uma certa relevância no contexto atual, embora sua primazia tenha sido deixada para a velha modernidade.

(O homem da câmera - Dziga Vertov 1929)

O meio é propício para os gostos conscienciais, os atos e aquilo que é mais aparentável de ser. Assim, o gosto é o determinante de uma essência, se é que podemos falar de uma essência, mas são as preferências, hoje em dia, que singulariza o sujeito e muito além disso, o isola. Cada um toma os próprios gostos pra si e que se dane o outro. Aliás é o outro que está excluído da minha escolha. "EU gosto de ouvir tais bandas", "EU detesto determinadas situações", ... é o eu sozinho que faz suas escolhas e se encerra em si,não admite alguma forma de intervenção. A identificação é rápida e flexível, variando num ritmo frenético. A fila anda. Stuart Hall fala do supermercado cultural, istoé, das coisas que circulam mundialmente e colhemos para fazer parte daquilo que chamamos de identidade, que é menos uma bola de bilhar do que um mosaico multicolorido.

Com o neoliberalismo e seus efeitos, como o desemprego e menos estabilidade das relações contratuais, o que está em jogo é o salve-se quem puder, ou modernizando o ditado, salve-se quem puder e quiser. Hoje em dia, por mais reacionário que isso pareça, o pobre é assim porque quer, porque gosta da sua condição e não por explicações causais maiores como porque ele não teve oportunidades ou porque ele foi duro com a vida. A pobreza é considerada como uma escolha.

A enorme variedade de possibilidades e a suposta liberdade que a cidade permite ser nos caracteriza como os únicos que poderão dar o ponto final nesse mundo dadaísta que vivemos. Somos senhores do nosso destino, queremos espantar nossa característica trágica e por isso tudo aquilo que nos caracteriza, o culpado é o EU, o mesmo que faz os gostos, é o réu da sua própria sina. Por isso ainda, tanto charme e elouqüência na mídia, para afastar o que há de trágico em nós, o que não tem sentido, o que não há explicação. Tornemo-nos neuróticos sim, mas mais ainda por tentarmos sermos ao máximo aquilo que queremos e senão o atingirmos, fracassamos e assumimos culpa desse fracasso. Sou EU que gosto, sou EU que quero e sou EU que faço.

segunda-feira, 3 de março de 2008

MA FRANÇAIS EST TRÉS BIZARRE



http://www.youtube.com/watch?v=bybKftoefsw

Para vocês como eu que não tem tempo ($$$$$$$$) não aprendem francês, eu lhe dou a solução: YELLE em três lições!
1.SEJA VINTAGE: VISTA-SE COMO SE TIVESSE NOS ANOS 80, se ainda tiver Pega Vareta, Pogobol ou Atari melhor ainda.
2. Abuse no Pop! Seja Pop e não tenha vergonha disso! Quando seus amigos lhe olharem estranho, pense senão está na hora de parar.
3.Freqüente festas fashionistas em que você pode aparecer no Marcelo Araripe ou na Erika Palomino.
PRONTO! VOCÊ É TÃO FRANCÊS QUANTO YELLE! \o/



Meu amigo Frankenstein acordou hoje com ressaca moral da noite passada. Afinal, um cérebro prestigiado como de Shaw deve ter abusado muito do seu córtex cingulado anterior, a área que é responsável pela coordenação dos movimentos e ações e nos diz a respeito se o que estamos fazendo está de acordo com aquilo que queríamos fazer. Bêbados na maioria das vezes efetivamente mandam o cingulado anterior pro espaço, como fez meu querido frank Shaw.

"Oh man, I've got a terrible headache!"

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A saga do Frank ...(ic)... Frankenstein.

Anos e anos lecionando na faculdade de Cambridge, dando palestras pelo mundo afora e escrevendo os títulos dos melhores best-sellers, nunca imaginei vivenciar esse momento de extrema importância e que deixará marcas até eu virar cinzas. Uma coisa gosmenta, acizentada com algumas regiões brancas, com a forma achatada e se encontra em dobras. É... eu achei o cérebro!

Eram altas horas da noite quando ouvi um barulho no andar de baixo, mais exatamente, no sótão onde fica minha adega com os melhores vinhos do Brasil e talvez do mundo. Curioso e destemido como eu não existe, então parti para saber o que estava acontecendo. Coloquei meu roupão de seda, minhas pantufas pois se eu saísse da minha quente e colocasse meus pés no chão frio seria motivo de mau humor para o dia inteiro. Durante o caminho pensei no que poderia ser essa hipótese: Será que é o meu filho que decidiu bebericar um Romanée-Conti ou Château Latour? Não, ele é adepto da Cantina da Serra mesmo.

Fiquei mais impressionado com o ritmo a cada passo mais próximo, parecia uma escola de samba. Será que estão fazendo uma festa surpresa pra mim e chamaram a bateria da Mangueira pra comemorar? Mas meu aniversário já passou e os meus amigos mais próximos sabem que de samba eu só gosto de Cartola, meu amigo de infância.

Quando cheguei então na porta, o barulho parou. Resolvi abrir... A porta estava entreaberta e lá se encontrava o meu maior segredo com vida! O meu Frankenstein!
Anos e mais anos de pesquisa tentando encontrar um segredo, qualquer que fosse, para animar a minha experiência mais extravagante de toda minha vida. Eu já havia até esquecido dela.

Mas... como ele conseguiu vida?

Eu fui conversar com ele, afinal, ele possuía o cérebro de Bernard Shaw e com certeza saberia se expressar da melhor forma possível. Porém, notei que alguns meus "Sauvignons" estavam abertos e to-tal-men-te vazios. Então percebi que meu querido recém-nascido tinha um forte pra bebida.

"-Oh man, I lost count of how much I have drunk!Could you take me home?"

Não tinha escolha senão concordar e levantar Bernard Shaw no corpo de um homem de mais de 90 quilos e carregar até o quarto de hóspedes. Assim que chegamos, ele se jogou na cama e apagou.
A partir daí eu sei que o seu sistema modulador estava ativo desativando seu locus coeruleus que assim diminuia a quantidade de adrenalina no cérebro de Shaw o embalando para uma noite tranquila.

Eu apaguei a luz do quarto e disse em voz baixinha: "Good night, Bernard." E fui dormir.